Snapchat, o império do efêmero*

O aplicativo Snapchat, queridinho da hora das marcas e da turma que faz planejamento em marketing, abriu o Discover, sua área de publicação de conteúdo, para a entrada de mais três publishers nesta semana. Juntaram-se ao seleto grupo de 12 convidados, Mashable, IGN (uma publicação que fala sobre games) e o Tastemade ( viagens e gastronomia). Entre os VIPs já estavam CNN, National Geographic, BuzzFeed, Daily Mail, Cosmopolitan e Vice.

discoveryFazer parte desse clube significa ganhar autonomia para colocar conteúdo permanente e disponível para qualquer audiência que tenha perfil ativo no app (hoje são cerca de 100 milhões de usuários ativos vendo cerca de 3 bilhões de vídeos por dia, segundo os criadores do app). Bom para esses veículos, que podem falar diretamente com a turma da geração Z, aquela dos 13 aos 25 anos que usa e abusa do app para se comunicar o tempo todo com vídeos e fotos engraçadinhas. Em contrapartida, a startup tem à sua disposição conteúdo diferenciado e exclusivo para vender neste ambiente ads por preços bem mais altos que os praticados por Google e Facebook.

Criado em 2011 e já avaliado em US$ 16 bilhões (?!), o Snapchat é um ambiente desafiador para quem produz notícia e informação. Não basta estar ali: é preciso encontrar novas formas de contar histórias e seduzir a audiência teen e jovem, ávida por conteúdo lúdico, ágil e efêmero. Além disso, não é fácil construir uma audiência: o público precisa te seguir, saber que vc está ali, sendo que seu conteúdo, se você não está no Discover, fica disponível por no máximo 24 horas. As métricas também não são simples de se ter, uma vez que o app parece não ter sido desenvolvido pensando nessa possibilidade de medir resultados das postagens.

Numa rápida navegada pelo app, vê-se que a maioria das 15 marcas escolhidas para figurar no Discover faz uma colagem de vídeos curtos e gifs animados. Mas também é possível encontrar por trás disso há um conteúdo mais extenso e profundo. Sim, pois é, nem só de efêmeros momentos vive o fantasminha amarelo. Vídeos tutoriais e reviews sobre os games no ING, reportagens mais amplas na CNN, entrevistas com textos mais longos na National Geographic.

Fico me perguntando se essa estratégia faz sentido para uma plataforma que foi criada para compartilhar fotos e vídeos super curtos e efêmeros entre a turma dos 13 aos 25 anos. Será que foi verificada uma tendência na busca por um outro tipo de conteúdo? Ou é uma tentativa de seguir uma trilha mais segura e já testada por outros players do mundo das redes sociais para o modelo de negócio?

Vai dar certo? A garotada vai de fato clicar nesses conteúdos e com isso contribuir com a monetização? Who knows… Daquelas respostas que valem muitos sacos de ouro.

Mas o que realmente me espanta no sucesso do app é essa maxi exacerbação do efêmero entre a meninada. Ok, o Snapchat não é um produto para a minha geração. Me enrolo com a navegação e cismo em querer ver de novo o conteúdo que puf! sumiu. Não foi feito para a turma nostálgica da memória física, que revelava filmes e até hoje guarda os negativos. Que recortava artigos de jornais e revistas, coleciona exemplares de HQ. É feito para quem vive da memória virtual e fluida, mais que efêmera, que nem precisa ser salva na nuvem. É apenas o agora e que em segundos desaparece, se desintegra. E eles, a geração Z e os Millenials, dizem não sentir a menor falta desses registros. Será?

* “O império do efêmero”, do filósofo Gilles Lipovetsky, foi um dos livros que li há mais de 20 anos, ainda na faculdade de comunicação. Falava da moda, da estética do luxo, da identidade construída por esse processo de significação. Não por acaso agora, quando penso em retomar o caminho acadêmico, estou lendo “A estetização do mundo”, do mesmo autor, lançado este ano, e que trata do hiperindividualismo contemporâneo das vidas estetizadas. Recomendo.

Lista de finalistas da ONA: uma breve prova de que o jornalismo vai sobreviver sim

maquinaA lista dos projetos e sites finalistas na premiação anual da Online News Association, anunciada essa semana, é um alento depois de tantas notícias ruins no nosso mercado de jornalismo brasileiro nesses últimos dias. Não, infelizmente, não temos nenhum projeto brasileiro por lá. Mas é bom ver como, apesar da crise mundo afora, ainda tem gente fazendo jornalismo nas plataformas digitais de forma séria, experimentando outras formas de atingir a audiência, tentando entender como esse consumidor multiconectado lê e interage com a informação.

A premiação da ONA equivale ao Oscar do jornalismo online mundial e é entregue no jantar de encerramento da conferência anual. O evento, que começou lá nos meados do anos 2000, reúne a turma que faz o melhor do jornalismo digital nas grandes empresas de mídia, nos coletivos espalhados pelo mundo, os executivos geeks, os desenvolvedores das empresas de tecnologia, pesquisadores de universidades, estudantes de jornalismo.

Tive a grata experiência de ser jurada da categoria em língua não-inglesa em 2007 e fomos finalistas com a brava equipe do Globo Online em 2008. Eram tempos em que a participação dos brasileiros ali era significativa. Hoje os sites e projetos de outras línguas que não a inglesa já competem de igual para igual em todas as categorias. Mas os veículos brasileiros não figuram entre os finalistas há dois anos.

Se você trabalha com jornalismo/comunicação ou gosta de ver boas histórias contadas de forma inovadora e criativa no ambiente digital, não pode deixar de olhar essa lista. Ainda não consegui navegar por tudo, mas já babei aqui no projeto que questiona a possibilidade de uma nova bolha no Nasdaq e faz você literalmente navegar pelo sobe e desce do índice, feito pelo time do Wall Street Journal.

Outro destaque é o N-Word do Washington Post, acompanhando o timing desses tempos de racismo ainda mais acirrado lá nos EUA e com a edição customizada de vídeos em tempo real de acordo com as escolhas que temas você faz para assistir.  Ou o projeto do Quarz sobre os milhares de satélites em órbita em cima de nossas cabeças. E ainda o especial da National Geographic sobre o futuro da produção de alimentos no mundo que não para de crescer e precisa alimentar toda essa gente. 

Sim, o negócio do jornalismo está em crise. Mas assim está porque os donos e gestores se negaram a mudar o modelo, baseado na escassez da informação, para o novo cenário de informação abundante. Nunca se consumiu tanta informação e ouso dizer que continuamos a pagar por ela, sempre que enxergamos valor e temos necessidade. A questão é que não queremos pagar mais pelo que virou commodity e que achamos que é possível encontrar em qualquer lugar. O modelo de negócio está ruindo. Mas o jornalismo vai seguir e sobreviver, renovado. Com nós, jornalistas, produzindo em outras estruturas, formas e formatos. E essa lista da ONA, ainda que bastante populada por velhos gigantes do jornalismo, divide espaço com projetos frescos e novos. E é um bom sinal disso.

Financial Times, menos uma joia da coroa ou a escolha de Sofia?

Sede do FT em Londres

Sede do FT em Londres

Em janeiro de 2008, durante visitas a jornais europeus que implementavam experiências de integração de redação off e online, tive a oportunidade de conhecer a redação do Financial Times. Ali, nas margens do Tâmisa, vi de perto as tentativas, já naquele momento somando dez anos, que o comando da redação fazia para produzir conteúdo digital de qualidade e integrado ao sofisticado e valioso conteúdo das edições impressas.

Além de usar um CMS avançado para acelerar os processos de integração, a redação já era totalmente orientada para o web first (sinto o cheiro de naftalina quando escrevo isso), com a publicação de todos os furos online, e contava com uma equipe de 20 pessoas apenas para a edição das homes do digital. A produção multimídia e a dedicada aos devices móveis ainda eram pequenas, mas já se ouvia no discurso das lideranças que essas demandas estavam crescendo e ganhariam maior prioridade no curto prazo.

Mesmo com tudo isso, com uma circulação digital que em cinco anos saltou de uma participação de 24% para 70% nas receitas gerais e com quase 750 mil assinantes digitais em seu paywall de US$ 53 mensais, hoje, quase oito anos depois, leio que o grupo Pearson anunciou a venda do FT para o grupo japonês Nikkei por US$ 1,3 bilhão.

A venda é mais um passo do gigante editorial da educação para enfrentar os desafios do mundo digital. Estava brigando nos últimos anos em duas frentes: no segmento da mídia e no da educação. Ambos sofrendo com a disrupção trazida pelas principais características da nova sociedade da informação: conteúdo online, on demand, veloz e gratuito.

O grupo já havia feito um forte reestruturação em 2013 para investir em educação digital, buscou uma maior participação nos mercados emergentes e no ano passado cortou 10% de seus quadros, 4 mil empregos. Com esse novo movimento, opta pela operação editorial e mantém no mercado de mídia apenas os 50% de participação na revista Economist.

FT.comE como fica o FT?

Nós, jornalistas que temos vivido essa forte transformação do negócio da informação, temos arrepios e sustos com esses movimentos tectônicos com os gigantes históricos da imprensa internacional. Foi assim quando a Amazon comprou o Washington Post, é assim quando o NYT apresenta seus resultados ou vende algum pedaço de seu império.

Apesar de ter 140 anos de experiência no mercado de mídia, o grupo Nikkei não traz consigo o mesmo prestígio e tem um perfil de produção de conteúdo totalmente diferente do FT. Seus produtos digitais são muito mais focados no mundo do entretenimento e os temas de economia e negócios são tratados de forma mais superficial. OK, a compra do FT pode ser um investimento para ocupar justamente esse outro território. Além disso, assim como o FT.com, o grupo japonês tem uma carteira de assinantes digitais poderosa e que tem aumentado a participação do digital nos negócios.

Que esse novo acionista não jogue por terra todo o esforço do FT no caminho da migração digital para a construção de um modelo de jornalismo de qualidade, sério e sustentável. We really hope.

Curto, curtíssimo sobre inovação

What’s happening is that we might, in fact, be at a time in our history where we’re being domesticated by these great big societal things, such as Facebook and the Internet. We’re being domesticated by them, because fewer and fewer and fewer of us have to be innovators to get by. And so, in the cold calculus of evolution by natural selection, at no greater time in history than ever before, copiers are probably doing better than innovators. Because innovation is extraordinarily hard.

— Mark Pagel, fellow of the Royal Society and professor of evolutionary biology, in conversation with Edge.org

Fonte: AllThings D

Ranking de sites de jornais EUA dezembro 2011

O ranking da Comscore com a posição dos sites de jornais americanos em dezembro. NYT continua liderando, apesar do paywall.

Website                                        Uniques per month (000)
The New York Times Brand                         30,585
USATODAY Sites                                              28,595
Tribune Newspapers                                      27,090
WASHINGTONPOST.COM                             18,671
Advance Digital                                                18,132
Mail Online                                                         16,686
Hearst Newspapers                                         13,810
McClatchy Corporation                                12,879
MediaNews Group                                          12,698
Wall Street Journal Online                          12,524
NYDAILYNEWS.COM                                      9,586
GUARDIAN.CO.UK                                           8,496
NYPOST.COM                                                     8,085
Lee Enterprises, Incorporated                   6,631
TOPIX                                                                    6,539

Experiências compartilhadas, negócios à vista

Na última quarta-feira, o Facebook ampliou mais um pouco as possibilidades de compartilhamento de atividades dos usuários. Os desenvolvedores já têm à sua disposição na API da rede social a possibilidade de usar nos verbos dos botões de compartilhamento ações para além do leu, viu, assistiu. Entre as novidades estão o quer, vai e viu.

O mais interessante nessa mudança é perceber alguns poucos negócios que já estão percebendo o valor do compartilhamento de ações como conteúdo e serviço para usuários. O Ticketmaster.com, por exemplo, já permite há algum tempinho que, ao comprar um ingresso, vc possa ver, a partir da conexão com o Facebook Connect, se algum amigo ou desafeto comprou entrada para o mesmo show ou jogo que vc. E a partir dali vc pode até notificar seu conhecido para marcar alguma esticada depois ou até desistir da compra. Ok, depende de vc e a outra pessoa estarem conectadas, mas já um começo.

Outra exemplo interessante que achei navegando no AllThings D foi um site que vai além dos check-ins do Foursquare, o Foodspotting.com.  Lá, o usuário compartilha a experiência, o prato e não apenas o fato de ter estado naquele lugar, gerando listas, compartilhando com amigos . Claramente mais um caminho para os negócios no mundo digital.