Não dê as costas para o seu leitor

Quantas vezes em anos de profissão você levou a sério uma denúncia feita por um leitor ao telefone? Não, não precisa ser uma denúncia capaz de derrubar o governo, mas uma sugestão de pauta.
OK, concordo que muitos ligam para falar do buraco na rua e não percebem o mundo além de seus problemas. Mas o fato é que essas pessoas, das quais os jornalistas se afastaram absurdamente nos últimos anos, cansaram. Viraram as costas e foram escrever seus blogs ou contribuir para veículos onde são jornalistas-cidadãos.
O Cit-J (abreviatura já dada pelos americanos para o movimento do Citizen Journalism) está na crista da onda nos EUA. Mas sua explosão foi na Ásia, mais precisamente na Coréia do Sul, com o Oh!MyNews (aqui a versão em inglês), um site de notícias que existe há cinco anos e onde apenas 20% do conteúdo é produzido pelos 41 jornalistas da redação. A maioria é escrito por cerca de 10 mil colaboradores (inclusive alguns na América Latina e na Europa), que recebem módicas quantias por isso. Foi esse jornalismo participativo que impediu uma fraude na eleição no país e vem deixando de cabelo em pé os políticos locais.
Aos poucos na Europa e nos EUA pequenas publicações e sites vêm testando a fórmula, tentando trazer os leitores de volta para seus braços. O guru dos blogueiros Dan Gilmor é um dos fervorosos defensores do modelo.
Mas já há também dezenas de críticos a postos. Questionam a capacidade desses cidadãos de lidar com a apuração e começam a apontar erros de informação que se multiplicam pela internet ( a vilã, sempre ela!!!).
Não tenho uma opinião absolutamente clara a respeito do assunto.
Acredito que nós, jornalistas, temos que parar de uma vez por todas de escrever para nós mesmos e para nos coleguinhas. Precisamos passar a enxergar nossos leitores e suas necessidades. Não, não defendo que apenas seja entregue a eles o que eles querem (esportes, sexo e fofocas, os recordes de audiência sempre).
Temos que parar e encontrar uma forma de entregar o assunto que eles rejeitam, mas não podem deixar de ler e refletir a respeito. Se é sobre a crise política atual – que começa a entrar naquele período em que o denuncismo é tamanho que passa a ser chato – precisamos descobrir uma forma de trazê-lo de volta para o assunto, gerando opinião e crítica.
Não concordo com os editores do site coreano que dizem que todo cidadão é um jornalista. E não é por corporativismo ou medo de a nossa profissão desaparecer. Acho que todo cidadão é, sim, um leitor em potencial. E pode nos ajudar a desempenhar melhor nosso papel de filtro.
A apuração, a checagem e mesmo a produção da notícia requer memória, senso crítico, isenção e técnica. Por isso, não consigo enxergar ainda onde é o meio desse caminho.
De qualquer forma, tenho lido com mais atenção as sugestões de leitores que me chegam por e-mail e tido mais paciência ao falar com eles por telefone…

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