NYT: Dividindo a baia com o inimigo

O anúncio foi feito nesta terça-feira: a direção do NYT decidiu juntar as redações do impresso e do online. O objetivo é, segundo o memorando assinado pelo big boss Bill Keller, ensinar os jornalistas a serem mais multimídias, pensando na distribuição virtual do conteúdo desde o início da apuração e diminuir as diferenças entre os jornalistas do impresso e do online.

Legal! Defendo e acredito, de verdade, que o caminho para as duas mídias é a aproximação e racionalização do trabalho nas redações. E quando um dinossauro como o Times opta por esse caminho deflagra uma moda que poderá contaminar alguns outros pelo mundo afora.

Mas alguns grandes detalhes me espantam e, confesso, me desanimam:

1. OK, não vou discutir que o jornalismo feito pelo NYT é muito bom ( bom, não vamos lembrar as matérias inventadas ou mal apuradas por dois ou três, né?). Todo o discurso do memorando de Mr. Bill é no sentido de que aos jornalistas do impresso só falta a técnica. Não há qualquer auto-crítica à qualidade do impresso ou referência às estrondosas quedas de circulação (segundo a Forbes a audiência do Times é hoje menor do que a do gratuito AM New York).

#Mas será que os jornalistas do online não têm NADA, NADICA a ensinar para os dinossauros, além de operar câmeras e fazer infográficos?? Será mesmo que o povo do online, a ralé do jornalismo do século XXI, não tem nada a acrescentar????

2. O sindicato dos jornalistas quer garantias de que não haverá demissões por conta da sinergia. Legal! Mas o sindicato não lembra que em maio o NYT colocou um PDV na redação e com isso reduziu o quadro em 29 vagas ( na empresa toda o corte foi de 190 postos de trabalho). No NYT.com trabalham cerca de 25 jornalistas.

3. O sindicato também quer garantir que o povo do impresso não irá perder benefícios e salários com a fusão. Mas em relação aos salários infinitamente inferiores dos jornalistas do online – aquela gente que só detém a técnica de mexer com computadores – ninguém tratou.

4. No memorando, Mr. Bill garante que a transição será tranqüila e deixa claro que os editores do impresso continuarão sendo o povo que manda, decide e edita. Toda a transição é para que ELES entendam o online como área de sua responsabilidade também.

#Mais uma vez me pergunto: por quê? Será que realmente em todos os casos o editor do impresso é a melhor opção e conseguirá ter essa flexibilidade? Será que em nenhuma editoria é hora de mexer, sacudir, colocar sangue novo?

Não consigo acreditar num processo em que, me parece, simplesmente partiu-se de uma única premissa: a primazia de qualidade do negócio papel e daqueles que o fazem.

Com a decisão, o NYT pode agora se orgulhar e dizer que ousou, foi pioneiro e moderno.

Mesmo de muito longe e atrás de um monitor, vou arriscar prever o que acontecerá na prática, fruto de uma transição mal pensada e executada:

* algumas adesões – muitas políticas e poucas verdadeiras – ao projeto online, que ao fim vão gerar produtos casados de qualidade e grande repercussão, mantendo a imagem pioneira do Times

* perda de liberdade e criatividade no dia-a-dia, com injeções de anestesia na equipe do online

* uma redação rachada e competindo mais que antes, só que agora ombro a ombro e dividindo a mesma baia

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